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30 de setembro de 2021 Clayton Carneiro

Pra mim ela só é surda

Uma vez, Dani e eu estávamos almoçando com um casal, uma brasileira e um inglês. Durante nosso papo muito descontraído descobrimos quanta coisa em comum nós temos quando nos comparamos a casais que são de países diferentes. E no meu caso é exatamente isso que eu sinto, que sou casado com uma estrangeira. Mas não é assim que a maioria das pessoas encara um Surdo. Como assim?

Porque o Surdo é um “estrangeiro”?

Para início de conversa, sugiro que você confira o nosso outro artigo “Surdos – implantados, oralizados, sinalizados… como assim??”. Assim você vai entender melhor como ser uma pessoa com surdez pode ter diferentes tipos de identidades. E a Dani se encaixa muito na descrição de um Surdo Sinalizado ou como tendo uma Identidade Surda. Ela foi alfabetizada em português, mas tem a Libras como sua primeira língua. Logo ela é filha de brasileiros, registrada como brasileira, mas não fala nem escreve em português. Aí já começam os problemas.

Como um surdo é visto pela sociedade

Para a sociedade o surdo é só uma pessoa com deficiência física. Aqui vamos enfatizar a palavra “deficiência” que muitos acreditam ser o contrário de “eficiência”. E isso quer dizer que para a sociedade em geral os surdos são incapazes de ter independência e responsabilidades. Na verdade, a família da Dani até hoje tem medo que ela faça coisas sozinhas como dirigir ou ir a lugares sozinha. O que é compreensível por conta de relatos de pessoas surdas sofrendo algum dano pelo fato de não ouvir uma abordagem policial, sendo confundidas com alguém sem educação que não responde uma pergunta e por aí vai. Mas por que eu não coloco a Dani em uma redoma de cuidados e proteção?

Não estou dizendo que sou um salvador, apenas quis o melhor para minha esposa.

Pra mim ela só é surda

Para mim, a pior deficiência da Dani e dos surdos em geral é a falta de informação. E já tendo lidado com surdos, Libras e a sociedade capacitista desde 2005, percebi o quão longe um surdo pode chegar se apenas for lhe oferecida as necessárias informações sobre o que ele precisa saber para ter uma vida independente e responsável.

Assim, logo que comecei a namorar com a Dani, a ajudei a tirar a carteira de habilitação e foi ela que foi dirigindo do interior de São Paulo até o Rio de Janeiro na nossa lua de mel – para o desespero da família dela. E olha que era uma serra com chuva e árvores caídas na estrada!

Não estou dizendo que sou um salvador, apenas quis o melhor para minha esposa. E sei que para qualquer surdo, o melhor é dar informação sobre tudo a eles: economia, saúde, política, ciência, tecnologia, pessoas, relacionamentos, e tudo mais que eles têm interesse em aprender. E ela também tem me ensinado muito nessa estrada de mão dupla. Mas confesso que ela é uma minoria.

Nem tudo são flores

“Uma andorinha só não faz verão”, diz o ditado. E eu sei que muita coisa ainda precisa ser feita para que o mundo de informações ao nosso redor esteja disponível diretamente aos surdos, sem que um amigo ou familiar fique interpretando para eles. A independência da informação para a comunidade surda é um sonho que eu tenho e estamos começando a alcançar isso pouco a pouco. A tecnologia aliada a ótimos profissionais da tradução é a chave para termos uma janela, ou melhor, uma ponte do mundo dos ouvintes falantes de português para os surdos que usam a Libras. Até lá, sigo feliz sendo o intérprete particular de todas as horas para a minha querida Dani.

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